No domingo, comentei aqui sobre
duas divindades da música, Madonna e Elvis Presley. Nos Estados Unidos, talvez
só exista um terceiro nome que se equipare aos dois, Michael Jackson (no resto
do mundo, é provável que só os beatlles tenham sido tão decisivos quanto esses
três pra história da música pop). Não é por nada que o menino que canta desde
os anos 60 e sustenta uma carreira solo desde 72, quando ainda tinha 14 anos, é
chamado de “rei do Pop”. Mas eu não deixei-o de fora sem motivo aparente,
deixei justamente para poder falar dele hoje, separadamente. Ou melhor, em
outro contexto.
Michael é grande, muito grande.
Nos anos oitenta ele era absoluto. Tal como o Midas, seu toque tinha o incrível
poder de transformar as coisas em ouro. Música, mais especificamente. Se
fossemos falar em recordes, seria preciso escrever um texto inteiro sobre o
assunto. Ele tem a maior venda de gravações musicais da história, algumas das
turnês mais vistas da história, Thriller é o álbum mais vendido de todos os
tempos. E quando se trata de gastar dinheiro, a disposição de Jackson também
era ilimitada, o mais caro vídeo-clipe da história para Scream, a produção de
um álbum mais cara de todos os tempos por Invencible e a capa mais cara de
álbum desde sempre para HIStory.
Mas tem um recorde especifico que
é mais interessante pra nossa discussão sobre cultura pop de hoje e envolve a
inserção de singles no topo da principal parada de sucesso dos Estados Unidos
(até hoje o principal mercado de música do planeta). Desde 12 de novembro de
1955 quando a revista Billboard criou seu gráfico das 100 músicas mais ouvidas
nos EUA, Michael é considerado o homem mais bem sucedido da indústria
fonográfica. Em setembro de 95 ele foi o primeiro artista a estrear uma música no
primeiro lugar, You Are Not Alone. Essa foi também a última de seus 15 singles
a chegar no topo da parada americana, o único artista masculino solo que o fez
mais vezes que Michael foi Elvis Presley e suas 17 músicas. Porém, enquanto
Elvis reinou por 13 anos, entre Hearbreak Hotel (1956) e Suspicious Mind
(1969), Michael dominou as aferições da Billboard por incríveis 33 anos, que
vão de Ben (1972) a You Are Not Alone (1995). Além disso – e finalmente vamos
chegar onde eu pretendo – ele conseguiu algo que Elvis nunca havia conseguido;
com sua máquina de singles, Michael Jackson conseguiu colocar 5 músicas de um
mesmo álbum no topo da Billboard Hot 100: I Just Can’t Stop Loving You, Bad,
The Way You Make Me Feel, Man In The Mirror e Dirty Diana, do álbum Bad de
1987.
Ninguém da sua geração foi capaz
de se igualar a Michael nesse volume de produção de singles musicais e de
popularidade. E olha que ele não era um homem muito “produtivo”. Lembra do
comentário do texto passado sobre a produção de CDs de Madonna? Pois bem,
Jackson tinha um processo de produção ainda mais lento em que a maioria dos
seus principais álbuns (sua boa fase começa em 1979 com Off The Wall) demorava
de 4 a 5 anos para ver a luz do dia. E ainda assim, eram tão bons que vendiam
como água e produziam um sucesso atrás do outro. Aos poucos, Michael mandou um
sinal claro para a indústria da música que naquela época possuía competidores
do porte de Prince, Madonna, Whitney Houston e Mariah Carey: se algum dia
houvesse um hitmaker capaz de superá-lo, ainda estava por nascer.
Durante anos, isso soou como uma
profecia. Mas quando Bad foi lançado em 1987, Katheryne Elizabeth Hudson estava
prestes a completar 3 aninhos. Filha de pastores evangélicos de Santa Bárbara
na Califórnia, ela lançou seu primeiro disco de músicas gospel em 2001 (mesmo
ano em que Michael lançava seu último álbum de estúdio em vida, com o irônico
título de Invencible). Ainda não era o caminho que o levaria ao estrelato. A
jovem Katy só alcançaria o sucesso sete anos depois, quando lançou seu primeiro
disco sob a alcunha pela qual é conhecida: o álbum One Of The Boys fez de Katy
Perry uma das melhores revelações da safra de cantoras pop da qual vieram Lady
Gaga e Ke$ha. Dois anos depois, ela alcançaria a consagração com seu segundo
álbum, Teenage Dream. Com pegadas joviais e o tipo de canção irônica que ele
mostrou saber como ninguém de sua fase, Perry foi convertida na primeira
hitmaker com fôlego para desafiar Michael Jacskson em seu império.
Cada single de Teenage Dream que
ela lançou tinha um tratamento musical diferenciado, com uma construção própria
cujo ápice resultava na confecção do vídeo-clipe (um elemento central da música
pop reinventado várias vezes por Michael), cada um com um estilo diferente, uma
história diferente e uma mensagem diferente. Uma a uma, as músicas iam
alcançando o primeiro lugar da Hot 100. California Gurls. Teenage Dream.
Firework. ET. Quando Last Friday Night (TGIF) alcançou a posição em 27 de
agosto, Katy se igualou ao rei com 5 músicas de um mesmo álbum no topo das
paradas. A gravadora e ela ainda fizeram da triste The One That Got Away o
sexto single do CD. A faixa foi bem sucedida, chegou ao 3º lugar da parada, mas
começou a cair. Perry não havia ultrapassado Michael Jackson mas tinha se
projetado para um outro patamar de artistas. Quando ser a 3º música mais ouvida
no maior mercado de entretenimento do mundo é uma derrota, significa que você
não é mais só um dos grandes, você é um dos muito grandes.
Foi um bom caminho percorrido
pela garota que transformou seus sonhos em realidade, certo? Com o disco
lançado a dois anos e a turnê encerrada, era hora de parar um pouco, entrar em
estúdio e preparar um outro material tão bom quando Teenage Drem para o fim de
2012 ou quem sabe início de 2013, não é? Esse era o caminho natural. Mas a
ganância de Katy Perry pelo primeiro lugar fez com que ela procurasse a saída
mais fácil: relançar o álbum com mais 3 músicas com cacife suficiente para se
tornar singles de sucesso e fazer o sexto número 1 na Hot 100 que The One That
Got Away não havia conseguido. O projeto original da gravadora era fazer de
Dressin’ Up o primeiro single desse novo produto, mas o recente divórcio de
Perry deu prioridade à música sobre rompimento Part Of Me.
Na semana de lançamento de Part
Of Me, Katy Perry foi chamada para tocar no Grammy Awards, maior prêmio
internacional de música. A apresentação apoteótica serviu de carro-chefe para a
divulgação de Part Of Me. O público se comportou como se tivesse perdido algo
importante, o momento chave em que Katy Perry havia lançado mais uma boa e
dançante canção (embora mais sombria que os felizes singles de Teenage Dream) e
correu para compra-la. 411 mil cópias foram vendidas do nada e a música é a
mais recente a estrear no primeiro lugar da Billboard Hot 100 (lembrem-se que a
primeira foi de MJ), antes mesmo de o clipe, que terá temática militar e foi
filmado na base dos Fuzileiros Navais, ser lançado.
Exatamente o sucesso que ela
planejava, mas não deu o resultado esperado. A Billboard anunciou em comunicado
que não considerará a canção como single de Teenage Dream e sim como do disco
Teenage Dream: The Complete Confeccion, nome que terá o relançamento do álbum.
Dessa forma, Katy Perry (a hitmaker da geração atual) segue empatada com
Michael Jackson (o hitmaker de todos os tempos?). No mundo dos muito grandes,
da qual fazem parte realezas como Madonna e Elvis Presley, isso significa que
Katy Perry ainda não é a melhor. Mas ela leva uma vantagem por ser uma das
competidoras desses anos e poder contar com a sua criatividade característica e
o conhecimento do modelo que a indústria da música emprega hoje. Além disso, que
fiquem registrados os meus pesares pela perda de Michael, ela está viva e pode
fazer o certo e trabalhar em um álbum completo tão bom ou melhor que Teenage
Dream que a faça levar seis singles ao número 1 da parada. E quem sabe um dia
não viremos a chama-la, também, de “rainha”.

