michael jackson e katy perry!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012 - Postado por Paulo Veras às 00:04
No domingo, comentei aqui sobre duas divindades da música, Madonna e Elvis Presley. Nos Estados Unidos, talvez só exista um terceiro nome que se equipare aos dois, Michael Jackson (no resto do mundo, é provável que só os beatlles tenham sido tão decisivos quanto esses três pra história da música pop). Não é por nada que o menino que canta desde os anos 60 e sustenta uma carreira solo desde 72, quando ainda tinha 14 anos, é chamado de “rei do Pop”. Mas eu não deixei-o de fora sem motivo aparente, deixei justamente para poder falar dele hoje, separadamente. Ou melhor, em outro contexto.


Michael é grande, muito grande. Nos anos oitenta ele era absoluto. Tal como o Midas, seu toque tinha o incrível poder de transformar as coisas em ouro. Música, mais especificamente. Se fossemos falar em recordes, seria preciso escrever um texto inteiro sobre o assunto. Ele tem a maior venda de gravações musicais da história, algumas das turnês mais vistas da história, Thriller é o álbum mais vendido de todos os tempos. E quando se trata de gastar dinheiro, a disposição de Jackson também era ilimitada, o mais caro vídeo-clipe da história para Scream, a produção de um álbum mais cara de todos os tempos por Invencible e a capa mais cara de álbum desde sempre para HIStory.
Mas tem um recorde especifico que é mais interessante pra nossa discussão sobre cultura pop de hoje e envolve a inserção de singles no topo da principal parada de sucesso dos Estados Unidos (até hoje o principal mercado de música do planeta). Desde 12 de novembro de 1955 quando a revista Billboard criou seu gráfico das 100 músicas mais ouvidas nos EUA, Michael é considerado o homem mais bem sucedido da indústria fonográfica. Em setembro de 95 ele foi o primeiro artista a estrear uma música no primeiro lugar, You Are Not Alone. Essa foi também a última de seus 15 singles a chegar no topo da parada americana, o único artista masculino solo que o fez mais vezes que Michael foi Elvis Presley e suas 17 músicas. Porém, enquanto Elvis reinou por 13 anos, entre Hearbreak Hotel (1956) e Suspicious Mind (1969), Michael dominou as aferições da Billboard por incríveis 33 anos, que vão de Ben (1972) a You Are Not Alone (1995). Além disso – e finalmente vamos chegar onde eu pretendo – ele conseguiu algo que Elvis nunca havia conseguido; com sua máquina de singles, Michael Jackson conseguiu colocar 5 músicas de um mesmo álbum no topo da Billboard Hot 100: I Just Can’t Stop Loving You, Bad, The Way You Make Me Feel, Man In The Mirror e Dirty Diana, do álbum Bad de 1987.
Ninguém da sua geração foi capaz de se igualar a Michael nesse volume de produção de singles musicais e de popularidade. E olha que ele não era um homem muito “produtivo”. Lembra do comentário do texto passado sobre a produção de CDs de Madonna? Pois bem, Jackson tinha um processo de produção ainda mais lento em que a maioria dos seus principais álbuns (sua boa fase começa em 1979 com Off The Wall) demorava de 4 a 5 anos para ver a luz do dia. E ainda assim, eram tão bons que vendiam como água e produziam um sucesso atrás do outro. Aos poucos, Michael mandou um sinal claro para a indústria da música que naquela época possuía competidores do porte de Prince, Madonna, Whitney Houston e Mariah Carey: se algum dia houvesse um hitmaker capaz de superá-lo, ainda estava por nascer.


Durante anos, isso soou como uma profecia. Mas quando Bad foi lançado em 1987, Katheryne Elizabeth Hudson estava prestes a completar 3 aninhos. Filha de pastores evangélicos de Santa Bárbara na Califórnia, ela lançou seu primeiro disco de músicas gospel em 2001 (mesmo ano em que Michael lançava seu último álbum de estúdio em vida, com o irônico título de Invencible). Ainda não era o caminho que o levaria ao estrelato. A jovem Katy só alcançaria o sucesso sete anos depois, quando lançou seu primeiro disco sob a alcunha pela qual é conhecida: o álbum One Of The Boys fez de Katy Perry uma das melhores revelações da safra de cantoras pop da qual vieram Lady Gaga e Ke$ha. Dois anos depois, ela alcançaria a consagração com seu segundo álbum, Teenage Dream. Com pegadas joviais e o tipo de canção irônica que ele mostrou saber como ninguém de sua fase, Perry foi convertida na primeira hitmaker com fôlego para desafiar Michael Jacskson em seu império.
Cada single de Teenage Dream que ela lançou tinha um tratamento musical diferenciado, com uma construção própria cujo ápice resultava na confecção do vídeo-clipe (um elemento central da música pop reinventado várias vezes por Michael), cada um com um estilo diferente, uma história diferente e uma mensagem diferente. Uma a uma, as músicas iam alcançando o primeiro lugar da Hot 100. California Gurls. Teenage Dream. Firework. ET. Quando Last Friday Night (TGIF) alcançou a posição em 27 de agosto, Katy se igualou ao rei com 5 músicas de um mesmo álbum no topo das paradas. A gravadora e ela ainda fizeram da triste The One That Got Away o sexto single do CD. A faixa foi bem sucedida, chegou ao 3º lugar da parada, mas começou a cair. Perry não havia ultrapassado Michael Jackson mas tinha se projetado para um outro patamar de artistas. Quando ser a 3º música mais ouvida no maior mercado de entretenimento do mundo é uma derrota, significa que você não é mais só um dos grandes, você é um dos muito grandes.
Foi um bom caminho percorrido pela garota que transformou seus sonhos em realidade, certo? Com o disco lançado a dois anos e a turnê encerrada, era hora de parar um pouco, entrar em estúdio e preparar um outro material tão bom quando Teenage Drem para o fim de 2012 ou quem sabe início de 2013, não é? Esse era o caminho natural. Mas a ganância de Katy Perry pelo primeiro lugar fez com que ela procurasse a saída mais fácil: relançar o álbum com mais 3 músicas com cacife suficiente para se tornar singles de sucesso e fazer o sexto número 1 na Hot 100 que The One That Got Away não havia conseguido. O projeto original da gravadora era fazer de Dressin’ Up o primeiro single desse novo produto, mas o recente divórcio de Perry deu prioridade à música sobre rompimento Part Of Me.


Na semana de lançamento de Part Of Me, Katy Perry foi chamada para tocar no Grammy Awards, maior prêmio internacional de música. A apresentação apoteótica serviu de carro-chefe para a divulgação de Part Of Me. O público se comportou como se tivesse perdido algo importante, o momento chave em que Katy Perry havia lançado mais uma boa e dançante canção (embora mais sombria que os felizes singles de Teenage Dream) e correu para compra-la. 411 mil cópias foram vendidas do nada e a música é a mais recente a estrear no primeiro lugar da Billboard Hot 100 (lembrem-se que a primeira foi de MJ), antes mesmo de o clipe, que terá temática militar e foi filmado na base dos Fuzileiros Navais, ser lançado.
Exatamente o sucesso que ela planejava, mas não deu o resultado esperado. A Billboard anunciou em comunicado que não considerará a canção como single de Teenage Dream e sim como do disco Teenage Dream: The Complete Confeccion, nome que terá o relançamento do álbum. Dessa forma, Katy Perry (a hitmaker da geração atual) segue empatada com Michael Jackson (o hitmaker de todos os tempos?). No mundo dos muito grandes, da qual fazem parte realezas como Madonna e Elvis Presley, isso significa que Katy Perry ainda não é a melhor. Mas ela leva uma vantagem por ser uma das competidoras desses anos e poder contar com a sua criatividade característica e o conhecimento do modelo que a indústria da música emprega hoje. Além disso, que fiquem registrados os meus pesares pela perda de Michael, ela está viva e pode fazer o certo e trabalhar em um álbum completo tão bom ou melhor que Teenage Dream que a faça levar seis singles ao número 1 da parada. E quem sabe um dia não viremos a chama-la, também, de “rainha”.