“O que lhes sucede? Dito de outra maneira, do que Deus os pune dando
seu nome, visto que ele não o dá a nada nem a ninguém, clamando pelo seu nome,
o nome próprio de ‘confusão’ que será sua marca e seu selo? Ele os pune por
terem querido construir à altura dos céus? Por terem querido alcançar o mais
alto, até o altíssimo? Talvez, sem dúvida, por isso, mas incontestavelmente por
terem querido assim se fazer um nome, dar a eles mesmos um nome, construir eles
mesmos seu próprio nome, reunir-se aí (‘que nós não sejamos mais dispersados...’)
como na unidade de um lugar que é ao mesmo tempo uma língua e uma torre, uma
como a outra. Ele os pune por terem querido assim se assegurar, por si mesmos,
uma genealogia única e universal. Pois o texto da Gênese encadeia
imediatamente, como se se tratasse da mesma intensão: erguer uma torre,
construir uma cidade, se fazer um nome numa língua universal que seja também um
idioma, e reunir uma filiação.” (livro 1)
“Para nos colocarmos no caminho desse redirecionamento, eu gostaria de
retomar à interpretação do mito de Babel, que não gostaria de fechar com a
ideia de catástrofe linguística infligida aos humanos por um deus ciumento de
seu sucesso. Também é possível ler esse mito, como aliás todos os outros mitos
do começo que levam em conta situações irreversíveis, como a constatação sem
condenação de uma separação originária. Pode-se começar, no início do Gênese,
com a separação dos elementos cósmicos que permite que uma ordem possa emergir
do caos, continuar com a perda da inocência e a expulsão do Jardim, que marca
também o acesso a idade adulta e responsável, e passar em seguida – e isso nos
interessa terrivelmente para uma releitura do mito de Babel – pelo fratricídio,
o assassinato de Abel, o qual faz da fraternidade ela mesma um projeto ético e
não mais um simples dado da natureza. Se adotarmos essa linha de leitura, que
partilho com o exegeta Paul Beauchamp, a dispersão e a confusão das línguas,
anunciadas pelo mito de Babel, vem coroar essa história de da separação,
levando-a ao coração do exercício da linguagem. Assim somos, assim existimos,
dispersos e confusos, e chamados para o quê? Bem... para a tradução!” (livro 2)
Tirei um descanso na semana
passada, por conta do ano novo. E sabia que na volta teria que redobrar as
forças. Assim, escolhi o que havia de melhor na minha sacolinha de coisas para
ver/ouvir/ler nas férias para dividir com vocês esse domingo. A começar com o “ver”.
Essa semana, eu vi o novo filme de Pedro Almodóvar, “A Pele que Habito”. O
espanhol é um velho conhecido dos meus olhos. Tenho uma amiga que é apaixonada
por cultura hispânica e que tratou de me introduzir em sua obra marcante. Aliás, marcante é um adjetivo
perfeito para se definir o “Pele”.
O filme foi saudado como uma
mudança de rumos no trabalho que Almodovar vinha desenvolvendo desde sempre. É visceral.
Fala sobre a (in)sanidade e sobre a identidade de cada um, e como elas caminham
juntas a beira de um precipício. Aliás, as temáticas não são exatamente
inéditas na filmografia dele. Mas em “A Pele que Habito”, aparecem mais fortes,
secas e impactantes.
Apesar dessa conexão temática,
senti falta de algo que é tão marcante em sua trajetória, o colorido de
Almodóvar. Aquela fotografia que, ao simplesmente aparecer na tela, lhe
garantem que você está diante de um dos maiores cineastas da atualidade. O que
não quer dizer que não haja um trabalho visual muito bem executado no filme.
Algumas cenas possuem uma estética tão perfeita que se confundem com a
história, funcionando elas também como uma discussão estética interessante.
Ademais, o que falar de Antônio
Banderas? Aos 51 anos, tão cheio de energia para preencher uma cena. Acreditem,
o trabalho dele é central para dar coerência a história e para dotá-la de sua
essência. Banderas e Almodovar são dois velhos conhecidos. A sintonia entre
ambos em Pele me remeteu, imediatamente, a outro filme do diretor, Matador de
1986, um dos melhores filmes que já vi na minha vida. A diferença é que, entre
aquele Banderas pueril e florescente para esse maduro e soturno, o cineasta
espanhol ganhou dois de seus melhores personagens.
Também essa semana, me propus ao
ouvir “Recanto”, o novo trabalho de Gal Costa que, por sinal, tem chamado muita
atenção da crítica especializada. E tenho que confessar que não sei dizer se
gostei ou não do trabalho. O álbum é o que se propõe a ser, uma incursão dela a
música eletrônica e a sonoridade do século XXI, altamente influenciada por
Caetano Veloso que fez tudo menos cantar. Vindo de uma cantora de 66 anos do
porte de Gal Costa, é uma proposta arriscadíssima e, é verdade, instigante.
Deve ter sido saboroso pra ela conduzir esse disco, por exemplo.
Mas e quanto a nós, meros
ouvintes? O que nós acharíamos do trabalho de Gal Costa em “Recanto”. Ela usa
de todas as engenhocas tecnológicas incluindo o tão surrado autotune, para
fazer um disco “moderno”. E o que ela consegue? Pra mim, pessoalmente, na maior
parte do álbum, vi sua voz competir com o som exaurido e sintético da banda,
quase como se fossem inconciliáveis.
E então, eu ouço um acorde nítido
de violão perdido no final de “Tudo Doi” e achei sublime. As faixas seguintes, “Neguinho”
e “O Menino” parecem mais confortáveis (e até certo ponto mais harmônicas) ao
usarem técnicas de “modernização” mais, digamos, “usuais”. Mas fico me
perguntando se a intenção de Gal não fosse, justamente, a discrepância de
músicas como “Autotune Autoerotico” ou de “Madre Deus”? E penso também se,
afinal, não estamos diante de um projeto que existe para ser experimental por
princípio.
Daí, pra contrastar com os
contrastes do CD da Gal Costa, ouvi também essa semana, o Ep Summertime do
Team.Radio. O quinteto recifense fez um trabalho extremamente primoroso e
harmônico que apresenta 5 belas músicas. Assim como a banda Kalouv de quem eu falei
há quase um mês (aqui), eles também fazem um indie rock instrumental de
muitíssimo bom gosto. São musicas preciosas para aqueles momentos com cara de
férias, ótimas para se curtir a beira-mar.
Apesar de fazerem um som
instrumental, em uma ou outra faixa os vocais são introduzidos para completar o
poder das músicas trabalhando justamente seu caráter sonoro, funcionando quase
como um outro instrumento que complemente a composição da música. Fique atento
para a graciosa “Come On” ou para a beleza de “Albatross”, que é quase
sinestésica no final e o transporta de verdade para a visão de mundo de uma
dessas aves.
Pra concluir com boas leituras,
me aventurei em dois livros fininhos lançados pela Editora da UFMG. O primeiro
deles é o “Torres de Babel” de Jacques Derrida. O filósofo francês é uma pedra
preciosa dos estudos de comunicação, e trabalha aí, a partir do mito babélico,
sua proposta teórica para a tradução. Se utilizando bastante de Walter Benjamin
e seu ensaio sobre “A Tarefa do Tradutor” (outro texto lindo que merece ser
comentado aqui no momento propício) ele destrincha sua visão sobre os limites
da (in)tradutibilidade.
Derrida tem uma visão apurada e
especializada do assunto que quer tratar. Mergulha no mais profundo do aporte
teórico de que dispõe sua formação (o currículo dele inclui ter sido professor
de Filosofia da Sorbonne) para produzir edifícios teóricos como a gramatologia
e sua descontrução. Aqui, arquitetura filosófica e desconstrução se encontram
em Babel, produzindo a gênese do processo de tradução.
No sentido contrário a obra de
Derrida, se encontra Paul Ricoeur. Nome de peso na hermenêutica, ele se
desvencilha do velho paradigma entre traduzível/intraduzível para impor uma
questão de ordem mais prática, adotando o dilema da fidelidade/traição. O livro
que eu li dele, “Sobre a Tradução” é, na verdade, uma coletânea de três textos
separados, o que o torna um tanto desconexo e redundante, como livros compostos
dessa maneira. Mas também demonstra com clareza a amplitude de impacto do que
suas ideias podem processar quando se deixa de discutir a possibilidade ou não
de uma tradução e se passa a trabalhar com a hipótese de o que e como traduzir.
E, sobretudo, como original, tradução e re-tradução se inter-relacionam.
Como a passagem bíblica da Torre
de Babel é o mito gerador do fenômeno da tradução, Ricoeur também escreve uma ou duas páginas sobre ele – que é, não esqueçamos, o tema central do ensaio de
Derrida. Ambos os trechos estão lá em cima. E, pelo que está lá, representam
marcadamente o pensamento de cada autor sobre o assunto. São maiores que o de
costume, eu sei, mas também são deliciosos e podem, cada um por seu turno,
despertar várias considerações em cada leitor. Como desafio, deixo na cabeça
dos exploradores o convite a desvendar de que livro cada trecho trata. E até a semana
que vem!

